Ônus do cargo

 

Conheça o outro lado da promoção: as dificuldades dos cargos de gerente, diretor e presidente

Por Renato Mendes

 

Parabéns, você foi promovido." Ouvir esta frase costuma ser garantia de satisfação imediata para dez em cada dez funcionários. O que muita gente esquece, no entanto, é que junto com todas as vantagens associadas à nova posição vem também uma série de novas responsabilidades. Algumas bem difíceis de lidar. "À medida que se sobe na hierarquia, a tendência é uma diminuição na pressão técnica e um aumento na pressão estratégica", explica Luiz Wever, sócio-diretor da consultoria Ray & Berndtson do Brasil, em São Paulo. Para o profissional, isso se traduz em uma cobrança para que ele saia de sua área específica de atuação e enxergue a empresa como um todo. É preciso deixar de lado a execução das funções, assumir o papel de orientador do time e, finalmente, mudar o foco da rotina diária para o longo prazo.

A carreira do engenheiro paranaense Eduardo Righi, de 28 anos, é um exemplo dessa trajetória. Há dois anos e meio no cargo de gerente de vendas da Credicard, em São Paulo, Eduardo conta que viveu dias atribulados quando assumiu a posição de líder. "Meu papel é dar condições para que meus funcionários obtenham bons resultados, mas no começo eu tinha vontade de executar as funções da equipe, quando via que alguém não estava fazendo as coisas direito", lembra Eduardo. "Hoje, sei que, se não delegar, não darei conta das minhas outras atividades." A tentação de retornar ao papel de executor é uma das principais dificuldades para quem se tornou chefe recentemente. A saída é resistir bravamente e focar no desenvolvimento da liderança.

"Cada cargo exige do profissional atitudes e comportamentos diferentes do anterior. Muitas vezes, inclusive, é preciso abrir mão de características que levaram ao sucesso e à promoção", explica Andréa Huggard-Caine Retti, sócia-diretora da Huggard-Caine, consultoria de RH, em São Paulo. Para o engenheiro paulista Carlos Correia, de 38 anos, a maior dificuldade, ao ser promovido de gerente para diretor de marketing da Bacardi, em São Paulo, foi desenvolver a autoridade. Carlos chefia um time de gerentes com boa formação, expectativas altas, desejo de crescer na empresa e grande capacidade de debater. Na hora de definir os rumos de um projeto ou a forma como ele será executado, as desavenças acabam surgindo. "É complicado. Aqui não tem cordeirinhos. Sei que as decisões não agradam a todos, mas liderança também é isso: dar feedback, ouvir frustrações e tentar amenizá-las, explicando o motivo das decisões para toda a equipe", diz.

QUANTO MAIS ALTO, MAIS DIFÍCIL
No degrau mais alto de uma empresa, as exigências em relação à liderança são ainda mais complexas. "De um presidente, as pessoas esperam muito mais que direção, esperam também inspiração", diz Patrícia Molino, diretora de assessoria em gestão de recursos humanos da consultoria KPMG, em São Paulo. Um dos ônus desse cargo é o fato de que o presidente não pode esquecer que sua figura de pessoa física jamais se descola da pessoa jurídica (PJ). Por isso, ele tem de se manter atento em relação a atitudes que possam prejudicar a imagem da companhia ou servir de exemplo negativo a outros funcionários. Mesmo quando está jantando fora com sua família, no fim de semana, o executivo continua a ser o presidente de determinada instituição. E é nesse papel que as pessoas vão vê-lo se brigar com o garçom, beber além da conta e arrumar confusão. "Ou você encara que é presidente 24 horas por dia e aceita a figura PJ ou terá problemas sérios", diz o engenheiro Antônio Wrobleski, mineiro, de 52 anos, presidente da Ryder Logística, com sede em São Paulo.

Antônio, no entanto, não se incomoda em ter de ser modelo de comportamento em tempo integral. São outras suas preocupações em relação ao cargo. Uma delas bateu à sua porta há poucos meses. Em abril deste ano, ele teve de demitir um funcionário de 55 anos. "O que me deixou mais angustiado foi a idade dele. Em um país como o Brasil, vai ser difícil arrumar outro emprego", afirma. Segundo Antônio, num caso desses a saída é seguir em frente, sem ruminar a culpa. "Se pensar muito, você se sente um crápula." Há pelo menos quatro anos Antônio não demitia ninguém. Na Ryder Logística, assim como em outras empresas, geralmente essa é uma função dos gerentes e diretores. Os gerentes, aliás, costumam sofrer ainda mais nessa situação. Primeiro, porque a maioria deles não está devidamente preparada. Segundo, porque normalmente eles têm uma relação próxima com a equipe, criando vínculos emocionais que são difíceis de separar da relação profissional. Diretores, por sua vez, demitem com mais freqüência e acabam tendo mais experiência nesse processo.

PRESSÃO E SOLIDÃO
Tão difícil quanto demitir é saber que, se não alcançar os resultados desejados, você é que perderá o emprego. Isso vale para qualquer profissional, mas o risco aumenta à medida que se cresce na empresa. Segundo especialistas, nunca na história executivos enfrentaram tanta pressão por resultados como hoje em dia. E o presidente é quem mais sente isso, até porque um erro pode custar seu cargo. Para piorar, ele ainda precisa ter o cuidado de não repassar totalmente essa pressão para seus funcionários.

O administrador de empresas paulista José Moisés Bucci, de 46 anos, diretor-geral de chassis e cintos de segurança da TRW Automotive, multinacional norte-americana do setor de autopeças, com sede em São Paulo, diz que sofre quando enfrenta dificuldades que fogem ao seu controle. Um exemplo? A cotação da moeda norte-americana. Em abril, ele fechou um contrato de exportação de freios com a Jeep, dos Estados Unidos. Fornecimento por sete anos, a começar no final de 2006. "O problema é que cotei o preço há um ano, quando o dólar estava em torno de 3,10 reais. O valor despencou e o que posso fazer para interceder? Nada!" José Moisés precisaria de uma cotação mínima de 3,00 reais para não ter prejuízo, mas a moeda, no momento da entrevista, estava na casa dos 2,50. "Fico muito angustiado", afirma.

Momentos como esse costumam ser solitários. E a solidão é exatamente um dos ônus da função de presidente. "Não participo mais dos happy hours da empresa. Quando convido, os funcionários vão por obrigação. Quando sou convidado e apareço, estrago a festa", brinca Antônio Wrobleski, da Ryder Logística. Piadas à parte, quanto mais você sobe na organização, mais se afasta da operação. "Isso gera uma distância em relação àquelas pessoas que compartilhavam confidências, que apontavam erros. É o chamado isolamento do poder", explica Roberto Heloani, pesquisador e professor na área de saúde do trabalho, da Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Outro peso do cargo de presidente é o fato de saber que os rumos que você traça para a empresa têm impacto na vida de todos os funcionários. "Você se sente responsável, como se a família de cada um deles fosse a sua. E não é só discurso", diz o carioca Marcelo Geraldi, de 40 anos, presidente do laboratório farmacêutico Farmoquímica, com sede no Rio de Janeiro.

EU NÃO QUERO SER CHEFE!
Muitos profissionais se questionam sobre até onde vale a pena avançar na hierarquia. Se você faz parte desse grupo, fique atento: a maioria das empresas não vê com bons olhos quem não deseja subir mais um degrau e assumir novas responsabilidades. Em outras palavras, é quase impossível recusar uma promoção. Veja os conselhos da consultoria de recursos humanos Huggard-Caine para quem recebe uma promoção para virar chefe, mas não está certo se quer aceitar:
* Descubra quais serão as tarefas desempenhadas e o que a empresa espera de você na nova função e com a nova equipe.
* Identifique quais os motivos que o levam a não querer ocupar o novo cargo.
* Feita a comparação, sente-se com seu chefe, exponha seu ponto de vista e ouça o dele. Negocie sem ser irredutível. Você pode, por exemplo, oferecer uma alternativa para resolver o problema, como permanecer temporariamente na nova função até que se encontre uma pessoa com perfil para o cargo.
* Se não houver acordo, peça ajuda da empresa no enfrentamento de suas dificuldades. Muitas carências podem ser sanadas com cursos ou orientação de coaches.
* Se resolver não aceitar mesmo a indicação, esteja preparado para uma possível demissão.  gerente, diretor e presidente 

 

O desafio de ser líder

Conheça o outro lado da promoção: as dficuldades, as habilidades requeridas e os erros típicos de quem é promovido

Por Andrea Huggard-Caine Reti*

Conheça as habilidades esperadas de gerentes, diretores e presidentes. E os principais erros cometidos em cada um dessas funções.

 

 Papel

 Habilidades

 Atitude

 Erros mais comuns

Gerente

Planejar o trabalho de outros colaboradores

 

Lidar com diversidade de pessoas

 

Respeitar opiniões diferentes das próprias

 

Ter sensibilidade sobre o uso do poder para motivar, instruir e não desmoralizar

Valorizar o sucesso dos seus colaboradores

 

Ser exemplo para os membros de sua equipe

 

Ensinar funcionários a fazer e não fazer o trabalho por eles

Continuar realizando atividades que o faziam ter sucesso no cargo anterior em vez de delegar

 

Criticar a gestão da empresa sem perceber que agora faz parte da própria.

Recrutar pessoas na sua própria imagem.

 

Criar panelas com ex-colegas

 Diretor

 Comunicar horizontal e verticalmente - com seus gerentes e com seus pares.


Amplo entendimento de como o negócio funciona.


Alocar recursos conforme as prioridades da empresaLiderar assuntos que desconhece.

Inspirar confiança.

 Dar suporte aos objetivos da empresa.


Valorizar todas as áreas de forma igual.


Buscar sinergia e oportunidades entre as unidades.

Saber que não sabe tudo.

 Encantar-se com projetos favoritos e tomar decisões com conhecimento limitado e parcial.


Não entender como a empresa de forma geral faz dinheiro.

Tomar decisões pensando apenas no resultado da sua área e não da corporação.

Fazer trabalho individual

 

Comunicar decisões e não como foram tomadas.

 Presidente

 Entregar resultados consistentes e previsíveis.

Direcionar estrategicamente a organização.

Determinar prioridades de recursos.

Lidar com todos os aspectos da legislação.

Dedicar tempo a público externo.

Representar a empresa em fóruns; mídia, governo; comunidade.

Concentrar-se em uma pequena lista de iniciativas de longo prazo.

Ser orientado pelo conselho.

Ser o modelo dos valores da empresa.

Ser transparente.

Ser imparcial.


Ignorar como as coisas são realizadas na organização.

Passar a maior parte do tempo em relacionamentos fora da organização.

Esquecer que nunca deixa de representar a empresa.

Se fechar na função.
Deixar de comunicar o que está acontecendo.

 


* Sócia-diretora da HuggardCaine Consultoria e Gestão em RH