Seu trabalho ou sua vida
Como superar a conspiração corporativa que te mantém atrelado ao trabalho
Susan Cramm
Se
você quer que sua vida seja mais do que uma série de reuniões, e-mails e viagens
de negócios, não está sozinho. Meu objetivo em quase todos os relacionamentos de
coaching é ajudar o cliente a encontrar um equilíbrio entre responsabilidades de
trabalho e vida pessoal. O poderoso Jack Welch, ex-CEO da General Eletric e
amigo pessoal de Bill Clinton, disse em entrevistas recentes que acredita que os
grandes diretores não tratam de assuntos sobre balanço de vida e trabalho porque
têm os “sistemas” necessários no lugar. Este é um comentário ridículo, mesmo
para aqueles que têm uma esposa em casa e legiões de assistentes pessoais. Os
únicos diretores que não fazem este equilíbrio são os que já doaram suas vidas
para a empresa.
Welch explica que o seu chefe quer fazer “seu trabalho tão
interessante até que sua vida pessoal se torne menos estressante”. Você pode
querer que seu chefe te veja por inteiro (e não ver seus filhos como
concorrentes), mas a maioria dos executivos pensa que em lar e família como algo
a ser lidado – como um apoio emocional e físico. Segundo Welch, o chefe típico
sabe “acomodar desafios pessoais e de trabalho se você conseguir isso sem perder
desempenho.“ Em outras palavras, você hipoteca sua vida à empresa no presente e
então espera pode tê-la em um futuro incerto.
Infelizmente, esta estratégia
não funciona realmente porque com o passar do tempo você percebe que seu
trabalho e vida estão fora de esquadro, bem como seus hábitos, expectativas,
responsabilidades e relacionamentos (ou a falta deles). Você já criou seu
próprio “sistema” – que seria a combinação de sua cultura de organização, seu
cargo e seus hábitos de trabalho – que funciona desde que você considere seu
trabalho em primeiro lugar e tudo o mais em segundo plano, terceiro ou nem
considere. Este sistema demanda longas horas longe de casa. Eventualmente, sua
esposa, filhos, amigos, igreja e comunidade se acostumam à sua ausência e
desenvolvem rotinas que requerem sua presença mas fazem o seu envolvimento do
dia-a-dia desnecessário.
É importante perceber que o balanço não se limita a
ter tempo livre, mas viver uma vida mais rica e intensa – e que seja mais
agradável e significativa. Isso implica que você tem que ter o trabalho na
perspectiva de uma das muitas coisas em que você quer se destacar, mas não o que
define quem você é. O equilíbrio também não significa necessariamente que você
tem que trabalhar menos horas – todos, incluindo o CEO, trabalham para os outros
e respondem às demandas através do controle delas – mas balanço significa ganhar
controle sobre quem, onde e como o trabalho é feito.
Se você é um dos muitos
cuja visão estreita do mundo consiste em trabalho e sono, o processo de
recalibrar seu sistema para se autodefinir pelo seu trabalho é difícil. A chave
para o equilíbrio é ter compromissos externos que aparecem em sua agenda e
tratá-los com o mesmo nível de dedicação que você dá ao trabalho. Welch diz a
verdade quando lembra que na maioria das empresas “o equilíbrio entre vida
pessoal e trabalho é o seu problema a ser resolvido”, e que “as pessoas que se
esforçam publicamente (com isso) ficam aprisionadas, ambivalentes, rotuladas,
não compromissadas e incompetentes”.
Em vez de deixar o trabalho tomar todo o
seu tempo, imponha limites. Ganhe vantagem com o fato de que as empresas e
diretores valorizam os resultados mais do que um esforço: descubra como
trabalhar de forma mais esperta – e como gerenciar o seu tempo. Quando alguém
tenta ter um compromisso externo, adota o mantra: “Não reclame; não justifique”.
Apenas faça com que saibam quanto tempo você tem, e trabalhe a partir daí.
Os que estão nos vinte e poucos anos têm a oportunidade de estabelecer um
equilíbrio em sua agenda pessoal e de trabalho desde o começo. Continue ou
incorpore as atividades extracurriculares que você gostou nos tempos de
faculdade. Se você eventualmente se casou e tem filhos, terá de esquecer algumas
dessas atividades, mas terá codificado um sistema que não deverá exigir que mude
de empresa, cargo ou carreira para se tornar o marido e pai que deseja. Fique
atento, entretanto, que se você fizer isso, afetará as empresas que escolher e
os cargos que aspira.
Uma vida equilibrada pode dar uma leve ofuscada em seu
brilho como gerenciador, ou até ativar a percepção de que você está na função
errada ou na empresa errada. Mas qual é a alternativa? Por toda a paixão que
você dedicou ao trabalho e a alegria que você adquiriu criando e colaborando com
outros, no fim do dia, é apenas um emprego. Ele não te abraça quando você está
triste, e certamente não irá cuidar de você quando você ficar mais velho.
A
maioria de nós não está destinada a ser e não quer se tornar o próximo Jack
Welch. Boa coisa, porque ele soa um tanto melancólico quando afirma “meus filhos
foram criados quase totalmente pela mãe deles” e nos adverte que quando se trata
deste equilíbrio, devemos que fazer como ele diz, e não como ele fez.
Susan Cramm é fundadora e presidente do Valuedance, uma empresa
de executive coaching em San Clemente, Califórnia. E-mail
susan@valuedance.com.