A mulher e o ensino de Paulo
A palavra submissão vem do latim aonde era usada para indicar um abaixamento
do tom de voz, ou uma simplificação de estilo das coisas. Só mais tarde passou
a ser usada com o sentido de submeter, subjugar, sujeitar.
No contexto bíblico algo semelhante
ocorreu. Quando da criação da mulher, o Senhor Deus declarou: “não é bom que o
homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”. NIV. A
palavra “corresponda” tem o sentido de oposto complementar, traduzida também
por idônea. Significa mais ou menos, “igual”. Eram duas vidas, mas um só
caminho, uma só missão. É interessante notar que não se fala de procriação. A
mulher é valorizada por si mesma, como parceira e contrapartida do homem. A
ênfase na procriação vem depois, e demonstra uma visão já desbalanceada do
casamento, dando origem a poligamia, que vê a mulher, em última análise, como
produtora de crianças. Aqui Eva era feita do mesmo material de Adão, e ainda
assim um ser totalmente novo. Entre eles haveria uma união exclusiva e
permanente, harmônica, de iguais, com um propósito único. Como mostra o
versículo 25, não havia barreiras entre eles.
Mas o relato continua, e veio a queda.
Nesse evento, descrito em Gen.3:16, Deus passa a subordinar a mulher ao homem. “À mulher Ele declarou:
“Multiplicarei grandemente o seu sofrimento na gravidez; com sofrimento você
dará à luz filhos”. Seu desejo será para o seu marido, e ele a dominará.”. NIV.
É interessante observar que a queda ocorreu não por um confronto ou uma
discordância entre o homem e a mulher, mas pela concordância e harmonia dos
dois, fora da vontade de Deus. A conseqüência foi que, de amar e cuidar um do
outro se passou a desejar e dominar um ao outro. Embora durante toda a história
tenhamos exemplos de casamentos muito melhores que isso, mesmo entre pagãos, a
tendência do pecado é essa mesmo. Alias, é a tendência de todos os
relacionamentos humanos, como fica claro logo adiante, em Gênesis, no versículo
4:7: “saiba que o pecado o ameaça à porta; ele deseja conquista-lo, mas você
deve dominá-lo”.
Na sociedade hebraica mais antiga, havia o
casamento por compra, mostrando a baixa condição da mulher, que na realidade se
tornava propriedade de seu marido, embora não pudesse ser vendida, como vemos
em Êxodo 21, nos versículos de 7 a 11: “Se um homem vender sua filha como
escrava, ela não será liberta como os escravos homens. Se ela não agradar a seu
senhor que a escolheu, ele deverá permitir que ela seja resgatada. Não pode
vendê-la a estrangeiros, pois isso seria deslealdade para com ela. Se o seu
senhor a escolher para seu filho, lhe dará direitos de uma filha. Se o senhor
tomar uma segunda mulher para si, não poderá privar a primeira de alimento, de
roupas e dos direitos conjugais. Se não garantir essas três coisas, ela poderá
ir embora sem precisar pagar nada.”.
A situação da mulher permaneceu essa, de
dominada pelo homem, com a poligamia sendo a regra, um ser humano de segunda
classe. A mulher não podia ensinar, não servia como testemunha, e não se esperava
que ninguém acreditasse nas palavras de uma mulher, coisa que até os apóstolos
fizeram, quando da ressurreição. (Lc 24:11). O Rabi Eliezer deixou o seguinte
ensino, por escrito: “É melhor queimar a Torah do que ensina-la a uma mulher,
pois elas são inferiores aos homens em tudo”. Até Jesus, o novo Adão, abordar o
assunto novamente.
Chegando a Judéia, vindo da Galiléia,
Jesus foi abordado por alguns fariseus. Ver Mateus 19: 1 até 12. Vale observar
que o final do versículo 9, “e se casar com outra mulher, estará cometendo
adultério” não consta em todos os manuscritos, e provavelmente é uma
interpolação. Não pretendemos esgotar o assunto. Basta reparar em alguns
pontos: Jesus está falando aos fariseus
que o estavam pondo a prova. Não está fixando uma regra, como quando ensina os discípulos, como algo que deva ser
seguido pelos cristãos naquela época e em todo o futuro. Mas fica muito claro,
sem dúvida, que o ideal divino para o relacionamento do homem e da mulher
permanece o mesmo da criação, de harmonia, igualdade e de uma só missão. Ao
mesmo tempo, fica claro também que ambos permaneceram as mesmas criaturas
frágeis, que frequentemente acham muito difícil, dentro de um casamento, manter
um relacionamento de unidade e igualdade, como algo que o Senhor uniu.
Essa
realidade era expressa pela lei romana da época, que mantinha a mulher em
completa submissão ao pater famílias.
Foi só no principado de Adriano que o marido perdeu o direito de condenar a
esposa à morte, na primeira metade do século segundo. E assim mesmo, as cortes
ainda poderiam decidir pela morte da esposa, conforme denúncia do marido. E foi
só mais tarde ainda, com Antonino Pio que o marido perdeu o direito de vender a
esposa e os filhos como escravos, para pagar dívidas. Um famoso legislador
romano, Gaius, afirmou que a mulher não poderia ter direitos jurídicos por si
mesmas, devendo sempre depender de um homem, que teria a qualificação de
guardião, porque, “mesmo mulheres mais
maduras devem ser mantidas sob tutela, em virtude de suas mentes mais fracas.”
É nessa realidade que se situa o
ensino do Apóstolo Paulo. Se lermos 1 Co. 11:2-16, 1 Co 14:34-35 ou 1 Tim
2:11-15 sem contextualizarmos, vamos dizer que Paulo era machista, misógino, um
“porco chauvinista”. Mas, mesmo se não contextualizarmos, mas procurarmos mais,
veremos que em Atos 16:11-15 a primeira convertida em Filipos foi Lídia, uma
mulher; veremos também que o líder que ele primeiro saúda em Ro 16:1-2 é Febe,
diaconisa em Cencréia
Paulo aborda o assunto
“submissão” em suas cartas aos colossenses, na primeira a Timóteo, a Tito, e
aos efésios, onde Paulo no capítulo 5:22 até 33, regulamenta relacionamentos
reais, falando a crentes em situações concretas, dentro de um contexto social
específico de uma época. O conceito básico a ser lembrado é o patria potestas, o poder absoluto do pater famílias sobre os outros membros
da família. A situação não é de um casamento, é de um casamento patriarcal. Um fator importante a
ser lembrado seria a ambigüidade de papel e status da mulher em uma igreja que
se reunia em casas particulares, uma reunião pública em um espaço privado. Qual
seria o papel do pater famílias? Um
membro como os demais, ou teria o pater
potestas? E mulher, esposa ou membro? Já vimos a lei romana.
A posição de Paulo, no entanto, é a de Gálatas
3:28; “Não há judeu nem grego,escravo nem livre, homem nem mulher”, o que está
de acordo com a volta ao ideal divino, como Jesus falou aos fariseus.
Certamente Paulo queria dizer o que disse, e o fez de maneira abrangente,
racial/cultural, social/econômico, e de gênero. Mas a Igreja vive a tensão de
um período intermediário, entre a realidade da ressurreição do Senhor, e a
espera da consumação. Os crentes judeus ainda eram judeus, os escravos cristãos
ainda eram escravos, e esposas patriarcais, ainda esposas patriarcais.
Como tantas vezes ocorre no ministério de
Paulo, as realidades sociais condicionavam a prática do princípio.
O ideal a ser perseguido é o da unidade,
como era no princípio.
Pode parecer que esse ideal é só
intelectual, sem grandes repercussões práticas. Mas não é assim. Vejamos o caso
de nossa Igreja. O trabalho foi organizado, dentro de um conceito, sem dúvida
correto, de aplicar à Igreja institucional os princípios bíblicos, adequados à
época e a cultura. Foi então elaborada uma ordenação de atividades,
estabelecendo-se agências para o trabalho cristão, promulgadas em 20 de julho
de 1950. Foram elaboradas por cristãos altamente capacitados, mas que tiveram
sua formação intelectual e teológica antes da segunda guerra, e que por isso refletiam
um entendimento dessa época pré-guerra. Assim, o trabalho masculino foi
organizado em UPHs , e o feminino em SAFs , colocando homens e mulheres em
mundos separados, entendendo que as mulheres eram “donas de casa”, e os homens
“pais de família”, e que as mulheres teriam tempo de sobra, e os homens não.
Com a manutenção, para não dizer a sacralização dessas agências, o que se
observa hoje é uma SAF operosa, mas constituída primariamente de mulheres
idosas, que realmente tem tempo para as coisas, e a inexistência de uma UPH. O
simples reconhecimento do ideal bíblico de unidade, colocando homens e mulheres
trabalhando ombro a ombro, em um só mundo, deveria levar a Igreja, no contexto
de hoje, a reorganizar as atividades, colocando homem e mulher trabalhando
juntos, para o Senhor.
Se
observarmos bem, era isso que o Apóstolo queria.