A RELAÇÃO HOMEM-MULHER NA BÍBLIA
O
Projeto
Gen.1:27 – conceito bíblico fundamental da pessoa
humana e de seu valor : homem/mulher feitos “ à imagem e semelhança de Deus ”. Deus
deixou algo de si no ser humano, o que dá a este uma dignidade especial.
Homem e mulher, como a Trindade, são iguais e, ao
mesmo tempo, diferentes. Essa igualdade e diferença simultâneas é que permite a
eles uma relação sem fusão, uma intimidade sem perda de identidade, uma
aproximação, mas ao mesmo tempo, o direito ao espaço psicossocial e espiritual
para crescer.
Igualdade:
- em sua condição (imagem de Deus)
- em sua vocação (ambos recebem o mandato de dominar a
terra)
- em sua satisfação (mútua aceitação e gozo)
Diferença: se a igualdade lhes permite relação,
co-participação e aceitação, a dessemelhança permite individuação e
crescimento.
A Queda
Houve uma ruptura no projeto divino após o pecado de
Gen. 3. Agora homem e mulher se escondem de Deus, conscientizam-se de que
“estão nus” porque já não conseguem se aceitar a si mesmos. De fato, o primeiro
sinal de separação entre o homem e a mulher, conseqüência do pecado, é a
vergonha que os dois sentem um frente ao outro ao perceberem que estão desnudos
(v.7). A nudez inocente de 2:25 (“Ora, um e outro, o homem e sua mulher estavam
nus e não se envergonhavam.”) torna-se uma nudez suspeita, indicativa de uma
ruptura da intimidade mútua e da comunhão com Deus.Eles se distanciam, se
acusam e já não mais se vêem como iguais.
Fica comprovado que a promessa da serpente, sereis como Deus (v.5), foi mentirosa.
Ao invés de conhecer o bem e o mal,
eles conhecem sua própria vulnerabilidade diante de Deus e do próximo.
O efeito mais profundo disso sobre o relacionamento
nota-se no manejo das diferenças. Estas perdem o caráter de idoneidade e
complementaridade e se transformam em motivo de conflito.
O homem deixa de ser o companheiro para se tornar o
acusador da mulher. Torna-se incapaz de assumir a sua responsabilidade e
manejar sua autonomia. Agora o homem vê a mulher de forma diferente. Até muda
seu nome: ela já não é mais varoa
(companheira, igual), termo que destaca sua identidade, mas Eva (mãe
de todos os seres viventes), vocábulo que ressalta sua função. Podemos encontrar aqui as raízes profundas e históricas do
machismo. A queda afetou as bases do casamento e da família.
“ A primeira divisão da humanidade não foi entre
escravo e senhor, burguês e proletário, mas entre homem e mulher ”.
“És portal do
diabo, que desselou aquela árvore; foste a primeira em desertar da lei divina;
és aquela que persuadiu àquele a quem o diabo não se atreveu a atacar. Com
quanta facilidade destruíste a imagem de Deus, o homem. Por causa do castigo
que merecias, a morte, até o Filho de Deus teve que morrer.” (Tertuliano-
155-222 – pai da igreja, um dos primeiros escritores
cristãos em língua latina)
A relação homem-mulher ao longo da história tem sido
constantemente marcada pelo machismo e pela misoginia. Frente à discriminação
que a mulher tem sofrido, muitas vezes supostamente apoiada pelo ensino
bíblico, não é surpresa que a ala radical do movimento feminista descarte a
Bíblia por considerá-la machista, fonte e origem do sexismo que atinge a igreja
e a sociedade.
Não se pode deduzir da descrição da mulher como
auxiliadora idônea do homem que ela seja hierarquicamente inferior a ele. O
sentido não é de “ajudante subordinada”, como se ela estivesse a serviço do
homem. Das 21 vezes que a palavra (ezer)
aparece no Antigo Testamento, 15 servem para descrever Deus como ajudador de pessoas em situações de
necessidade. Exemplo: Salmo 121:1-2
Assim a relação homem-mulher não pode ser definida em
termos de uma diferenciação hierárquica entre um ser superior e um inferior,
mas em termos de uma diferenciação funcional entre dois seres humanos em
pé de igualdade. A intenção de Deus na criação do casal foi que entre o homem e
a mulher se estabelecesse um companheirismo íntimo, uma dependência mútua
baseada na natureza complementar dos dois.
Já que o homem e a mulher foram criados à imagem e
semelhança de Deus e compartilham uma vocação comum no mundo, eles são iguais.
Por isso devem se amar e respeitar mutuamente. E porque são diferentes, nenhum
deles deve negar sua função distintiva, ou querer usurpar o papel do outro, ou
ainda pretender realizar-se em total independência do outro. O homem
descobre sua identidade masculina
frente á mulher, e esta descobre sua identidade feminina frente ao homem.
A Restauração
A graça de Deus não deixou o ser humano em tal
condição, mas este concebeu um plano de redenção. A presença de Jesus na
história marca o advento de uma nova fase – a superação da experiência da
queda. Há o surgimento de uma nova humanidade (Ef.2:15). As divisões ocorridas
ao longo da história desaparecem (raça, educação, sexo, classe), já que “não
pode haver judeu nem grego; nem escravo
nem liberto; nem homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”
A obra de Jesus, cumprida em sua morte e ressurreição,
dirige-se à totalidade da existência humana. Não tem exclusivamente a ver com a
salvação da alma em um futuro distante, nem se limita ao aspecto religioso. Ela
toca o ser humano no próprio centro da sua personalidade e transforma todas as
suas relações. Visa a restauração da imagem de Deus no homem. Esta é a
convicção que torna possível ao apóstolo Paulo proclamar o desaparecimento das
divisões entre os seres humanos. A idéia central é clara : A unidade da
humanidade, baseada na criação , mas afetada pelo pecado, foi restaurada por
Jesus . Portanto as divisões raciais, sociais ou sexuais, que colocam alguns em
situação de superioridade e outros em situação de inferioridade, perderam a
vigência.
Era essa a atitude de Jesus para com todas as pessoas que
na sociedade judaica do seu tempo eram vítimas de discriminação e menosprezo,
entre elas as mulheres. Em seu tratamento para com elas, Jesus se atreveu a
romper os cânones de sua própria cultura e a reconhecer a dignidade do sexo
feminino de maneira surpreendente.
“ Sem alardes nem publicidade, Jesus acabou
com a maldição da queda, devolveu à mulher a nobreza que tinha perdido
parcialmente, e restituiu a bênção original da igualdade dos sexos na nova
comunidade do Reino”(John Stott)
Um
Grande Mistério
Efésios 5: 21-33 - Agora se apresenta ao ser humano um
novo modelo que o casal deve seguir ao se relacionar. Paulo descreve este
modelo à luz da relação estabelecida entre Cristo e a igreja (vr. 23).
Marido e esposa devem se relacionar como Cristo se
relaciona com a igreja No encontro do homem e da mulher segundo este modelo,
ambos encontram uma realização plena. Isso é ir além das justas reivindicações
do movimento feminista pelos “direitos da mulher” e, ao mesmo tempo, uma bomba
nas bases do machismo.
O novo modelo
propõe uma situação de interdependência (cabeça/corpo). Na tomada de decisões,
por exemplo, de que forma a cabeça pode decidir sem contar com a colaboração do
corpo? E como poderia o corpo se movimentar sem a orquestração da cabeça?
A ênfase está nas responsabilidades, não nos
direitos de cada um dos cônjuges. O marido que faz do chamado à submissão
da mulher uma bandeira, não entendeu o propósito da passagem. A exortação à
mulher é inseparável da exortação ao homem.
A definição de responsabilidades específicas na relação
esposo-esposa está precedida por uma exortação geral : “...sujeitando-vos uns aos outros no temos de Cristo” (v.21). Embora o
chamado ao amor dirija-se ao esposo e não á esposa, a mulher não fica eximida
de amá-lo, e este de respeitá-la e se submeter. As exortações particulares tem
o objetivo de definir com maior precisão a responsabilidade de cada cônjuge,
sublinhando aquilo que cada um tem a contribuir para a relação familiar – ela,
o respeito que salvaguarda a integridade do amor; ele, o amor que se torna
credor do respeito.Cada um é convocado a cumprir o papel a que está melhor
dotado.
No Homem que Deus criou à sua imagem, segundo
Gen.1:27, não havia separação entre homem e mulher. No Novo Homem, segundo
Gal.3:28, Deus reconstituiu esta unidade essencial dos sexos - “não
pode haver...nem homem nem mulher.”
“Portanto, se alguém está em Cristo, é nova criação.
As coisas antigas já passaram; eis que surgiram coisas novas.” (II Cor.5:17)