A Epístola de Tiago é a mais hebraica das cartas do Novo Testamento, mas é escrita em muito bom grego.
O autor é Tiago, o irmão de Jesus. Como nós sabemos, por
Flávio Josefo, que Tiago morreu no ano 62, podemos concluir que a Epístola
reflete a prática e o pensamento da Igreja de Jerusalém antes desse ano (da
qual Tiago era um dos líderes – Gl 1:19).
De 108 versículos, 54 estão no imperativo, donde podemos
concluir que se trata de uma epístola pragmática, e serve para exortar. É
considerada a menos teológica do NT, com exceção, talvez, da de Filemom. Daí a
frase de Lutero, “epístola de palha” (para ser queimada?). O erro de Lutero é
que, embora a vida cristã comece e continue pela FÉ, esta só é realidade viva
se for vivida! Contribuiu para um certo descaso dos comentaristas a
distribuição um tanto caótica das orientações, o que levou João Calvino a dizer
que a epístola era “uma rica fonte de instruções variadas.”
A nós será de
interesse apenas um parágrafo, Tg 5:13-18.
O QUE TIAGO DISSE
A ênfase do parágrafo, o
assunto principal, é oração. O versículo chave é o 16: “A
oração de um justo é poderosa e eficaz.” O tópico da cura é abordado no
contexto de oração. Cada um dos versículos menciona oração, e Tiago termina com
o exemplo de Elias, como alguém que orou. A intenção do autor é enfatizar a
oração como base de todas as atividades da Igreja, e a cura de doentes
não é exceção.
A passagem pode ser dividida
em três sessões:
1- Caracterização de 3
grupos de pessoas e orientação no que fazer para cada um dos grupos (vv.13,14).
2- A orientação para o
terceiro grupo, os doentes, é feita com mais detalhes (vv.14b-16).
3- A eficácia dos
procedimentos recomendados é ilustrada com o exemplo de Elias.
Os 3 grupos são: os
sofredores, os felizes, e os doentes.
“Entre vocês há alguém que
está sofrendo?” (v.13). A vulgata traduz por “tristatus
aliquis uestrum?”, dando a idéia de tristeza, que vai contrastar com a alegria
de que se fala depois, no mesmo versículo. Esse primeiro grupo se refere às
pessoas que estão tristes, ou como mais comumente se diz hoje, deprimidas por
algum problema, dentre os muitos do dia a dia.
“Há alguém que se sente
feliz?” (v.13). Tiago não se refere a nenhuma situação em particular, mas se
dirige àqueles que estão alegres, eufóricos, em contraste com a situação
descrita anteriormente.
Até poderíamos pensar que
com essas duas categorias Tiago abrangeria a todos, mas há um terceiro grupo.
“Entre vocês há alguém que
está doente?” (v.14). É uma categoria especial em relação à
primeira. Não é um sofrimento qualquer, mas devido a doença.
ACONSELHAMENTOS:
A cada um dos três grupos
é dado um conselho:
Ao primeiro, oração.
Não há promessa de que a oração vai remover a causa da tristeza ou
depressão, mas deverá remover a tristeza em si.
Ao segundo, louvor.
Os que estão felizes devem cantar louvores a Deus.
Ambas as ações estão no
imperativo presente, ou seja, demandam uma ação continuada.
O CASO DOS DOENTES
O procedimento recomendado
ao terceiro grupo é bem diferente das recomendações aos outros dois. Nos dois
grupos anteriores, o procedimento não envolvia, pelo menos obrigatoriamente,
mais ninguém a não ser a própria pessoa. Mas nesse terceiro grupo há o
envolvimento dos presbíteros da Igreja. Talvez por isso Tiago separou
esse grupo do primeiro, mostrando que a Igreja tem uma responsabilidade
especial para com os doentes. O procedimento aqui é apresentado com muito mais
detalhes do que nos casos anteriores, e o verbo, no grego, sugere uma ação
imediata e única (aorista imperativo).
O PROCEDIMENTO
PROPRIAMENTE DITO
O doente deve chamar os
presbíteros, para fazerem duas coisas: devem orar pelo doente, e ungir
(elaion) no nome do Senhor (v.14b). Ambas as ações reconhecem que
o Senhor é a fonte da cura, e das duas ações, a mais importante é a oração, o
que é indicado pelo fato de “orar” ser o verbo principal, e ungir a partícula
subordinada.
Não há instrução para que
o doente confesse seus pecados aos presbíteros, e, portanto, não há aqui
justificativa para a prática romana da confissão auricular, O fato é que o
objetivo é claramente a cura, o que também invalida uma justificativa
romana da assim chamada extrema unção. No v.16, Tiago ignora os
presbíteros, e se dirige diretamente a congregação, e estabelece um padrão de
ação na ocorrência de doenças, de proximidade e certa intimidade, de boa
vontade entre os membros (sem mencionar, aqui, a unção com óleo, que parece ser
exclusiva dos presbíteros).
O final do v.16 é a chave
de todo o parágrafo. O justo é o cristão, por ser participante em
CRISTO, e a oração só é “poderosa” por isso, e não por uma ação especial do
Espírito Santo.
O EXEMPLO DE ELIAS
Tiago prossegue dando um exemplo,
e ele escolhe Elias, que, no exemplo, não tem relação alguma com cura, mas
serve muito bem para reforçar o objetivo do parágrafo, que é a oração.
A MENSAGEM QUE TIAGO
QUERIA TRANSMITIR
Para os dois primeiros
grupos, a mensagem é clara {sofredores e felizes}. Oração e louvor estão
indicados em todas as situações, e santificam tanto o sofrimento como a alegria
dos cristãos.
Já no caso dos doentes, o
significado não é tão claro.
O quê será que Tiago
entendia como causa e natureza da doença? A quais doenças ele se
referia? -As duas palavras que ele usa para significar doença se referem aos
efeitos físicos da doença (sinais e sintomas), e não a doença em si. Ele usa astheneo,
e kamno, com o significado de adoecer. Quando usado no tempo
passado, kamno pode significar a morte, mas não é o caso aqui, e
não justifica o uso “in extremis” como a Igreja Romana o faz.{ como veremos
adiante}.
Uma primeira observação é
de que não se trata de exorcismo, como fica claro pelo uso das palavras astheneo
e kamno. Mas é preciso esclarecer a relação entre doença e pecado.
Muitos sugerem que o Velho
testamento vê a doença como conseqüente ao pecado, e que essa era a perspectiva
de Tiago. Nem uma das duas
pressuposições é verdadeira. A partícula “se” no v.15 indica isso. Tiago
diz que se a doença for conseqüente ao pecado pessoal, o pecado será
perdoado. A conclusão é que algumas doenças são devidas ao pecado pessoal, e
outras não.
CURAS
Cura é mencionada só duas vezes no parágrafo (vv.15 e 16). O v.15 pode ser uma base para uma definição cristã de cura, a partir da oração de fé:
1- O doente ficará curado.
2- Ele se recuperara pelo
Senhor (levantará).
3- Pecados eventualmente
cometidos serão perdoados.
A primeira parte se refere
a cura física (gr.”sozo”). Na segunda parte, em resposta a oração de fé, o
Senhor recuperará, levantará o doente. O significado é tanto físico, como
espiritual. Já na terceira parte, o significado é claramente espiritual. Assim,
a cura atinge o ser humano como um todo. Se ocorreu pecado, a cura inclui o
perdão.
Podemos enunciar a definição do seguinte modo:
1- A doença física é removida.
2- A energia física e mental é restaurada.
3- O pecado se houver ocorrido, será perdoado.
Fica claro que, no
contexto cristão, é mais do que algo apenas físico, e inclui a totalidade da
pessoa.
OS PRESBÍTEROS
O doente deve chamar os
“presbíteros da igreja”. Quem eram eles? Não eram sacerdotes {gr. Presbuteros x
hiereus}. Lembremos que Tiago morreu no ano 62, e que aqui estamos falando não
da igreja primitiva, mas da igreja apostólica. É provável que a
instituição dos presbíteros seja herdada da sinagoga, que escolhia homens mais
experientes para supervisionar a adoração e o andamento da comunidade
No caso, por que chamar os presbíteros? Seria por que a cura é um atributo inerente ao cargo, ou seriam apenas representantes da congregação? Nas Epístolas Pastorais, a função de cura dos doentes não é mencionada nas atribuições dos presbíteros, nem em qualquer outro lugar do N.T.. Em I Corintios 12:9,28 e 30, o dom de cura é dado a critério do Espírito Santo, sem menção de função na Igreja. No nosso texto, a cura de doenças é para todos os crentes no v.16, mas nos vv.14 e 15 é associada apenas aos presbíteros. O mais provável é que os presbíteros sejam chamados como representantes da congregação. É interessante notar que os presbíteros são chamados como um grupo, formando um “corpo”. {“Ecclesia Summa Facultas Medica”}.
ORAÇÃO
É o principal tópico deste
parágrafo. Os vv.15 e 16 especificam que é a oração que curará o doente. Tiago
fala de alguns tipos de orações:
- “oração de fé” v.15
- “oração do justo” v.16
- “oração ardorosa” v.17
Deduzimos que Tiago se
refere a oração baseada na fé, e fé sem dúvidas {cf. Tg 1:6}. E como são os
presbíteros que oram, a fé em questão é a deles, e não a do doente { embora
seja a pedido do doente}. A oração, então, deve ser realizada por aqueles que
tem aceso ao Pai, os justos { os cristãos} v.16, e deve também ser
ardorosa, fervorosa. V.17. O termo aqui usado é “proseuche proseuxato”,
cuja tradução literal é que Elias “orou com uma oração”, o que significa uma
oração de grande intensidade.
Quanto ao fato de os vv.15
e 16 darem por certo a cura, não deve dar margem a se dizer que, se o doente
não for curado, é por “falta de fé”. Isso pode ser lógico, mas não o é na
lógica da fé. Lembremos que uma
qualificação da fé em Deus é a pressuposição do predomínio da vontade Dele
sobre a nossa. Por ex., o Apostolo Paulo orou três vezes, e não foi curado {2
Co.12:8}. Deus tinha seus motivos para a aflição dele.
A UNÇÃO COM ÓLEO
É a questão mais
interessante, mas sem dúvida não a mais importante do texto. O seu uso é
casual, e, no texto, aparece em partícula subordinada, sugerindo não se tratar
de algo novo, mas de costume já familiar aos leitores. O óleo em questão é o óleo de oliva {elaion}.
Era muito comum na época, e usado em todo lugar para culinária, toalete,
iluminação, com objetivos medicinais, e em ritos religiosos.
Duas palavras são usadas
no N.T. para a aplicação do óleo ao corpo. Aleipho é a palavra
para a aplicação do óleo para a toalete, ou com propósitos medicinais, como em
Mat. 6:17 e Mc6:13. A outra palavra é chrio, {de onde vem a
palavra crisma} que é a palavra usada em termos rituais, religiosos. É usada no
N.T. quando Deus comissiona alguém, mesmo o Senhor Jesus. {Lc4: 18, Atos4: 27, e 10:30, Heb.1:9}
Neste parágrafo, a palavra
é aleipho.
Há duas posições a
respeito da unção neste parágrafo:
Uma é que seria um
procedimento médico, e Tiago estaria orientando para que, além de se orar pelo
enfermo, todos os procedimentos adequados fossem utilizados, em nome do Senhor.
Comparando com “vigiai e orai”, seria “orai e medicai”. O fato de o óleo ser
indicado para todas as doenças não serve de objeção, pois na época ele era mesmo
usado em praticamente todas as doenças, sendo inclusive permitido seu uso pelos
judeus no sábado { na dor lombar e na dor de cabeça }. Na medicina antiga, o
óleo não era usado como uma panacéia, que curava tudo, mas era usado como
terapia de apoio para quase tudo.
Outra posição vê a unção
com óleo de oliva como um ato religioso sem significado médico. Em última
análise, é a visão Católica Romana da extrema unção, que como já vimos não tem
base alguma, uma vez que a unção é para a cura, e não em perigo de morte.
João Calvino rejeitava
ambas as posições, mas aceitava um significado religioso, crendo que o óleo
simboliza o Espírito Santo, e testemunha a presença curativa de Deus e seu
poder no processo todo. A dificuldade com essa interpretação está no v.16, aonde
a cura ocorre sem a unção com óleo. Seria como que no caso do v.16 Deus não
estivesse especialmente presente nas curas.
UNÇÃO COM ÓLEO - PARTE
DOIS
O termo unção é usado no N.T. para a vinda do Espírito Santo
em indivíduos, como uma marca de que pertencem ao povo de Deus {2 Co 1:21,22}.
O ponto é que toda menção de unção no N.T. tem utilização diferente da de
Tiago, diferenciando-o das demais.
Primeiro, a palavra não é chrio, e sim aleipho;
segundo, em Tiago o propósito é de cura, não de identificação e confirmação; e
terceiro, o uso real, físico do óleo de oliva só é feito aqui, sendo as outras
referências a “ungir” metafóricas e espirituais.
Há também no N.T. referências ao óleo de oliva na iluminação
{Mt. 25:3-8}, na cozinha {Ap.6:6 e 18:13}, na higiene pessoal { Mt.6:17 e
Lc.7:46}, e para tratamento de saúde {Mc6:13 e Lc 10:34} .
O único uso compatível com Tiago é o de tratamento.
Mas, no entanto, o mais correto é reconhecer que não há nesta
passagem evidências suficientes para decidir, de modo definitivo, se o uso do
óleo é medicinal ou religioso. Mas podemos dizer com segurança que o uso do
verbo aleipho faz pender a balança para o uso medicinal.
A UNÇÃO NA HISTÓRIA DA
IGREJA
Na história da Igreja o
uso predominante foi medicinal, mas também foi usado como símbolo material de
um rito religioso. Um ponto histórico importante é que no século IX o uso do
óleo para unção foi restrito aos clérigos na Igreja ocidental. Antes, era usado
por todos, com certa liberalidade. Cumpre observar que, se fosse um rito
religioso, a restrição não teria demorado 800 anos para acontecer!
Outros dois fatos
históricos têm relevância, que indicam o reconhecimento de que a unção com óleo
nem sempre cura: a primeira foi a
introdução, no século III, de medidas suplementares para aumentar a eficácia do
óleo. Nessa ocasião, passou a ser necessário uma consagração do óleo antes de
que fosse usado. De início, poderia ser consagrado na hora, por qualquer
cristão, mas no século V, o Papa Inocêncio I {401 a 417} decretou que o óleo
deveria ser consagrado por um Bispo, após o que poderia ser usado por todos.
Mais tarde ainda, passou-se a utilizarem-se apenas óleos retirados das lâmpadas
das igrejas, ou que fosse guardado junto a relíquias de santos. O segundo fato foi a associação da unção não
com a cura, mas com a morte, o que aconteceu na metade do século XII, quando
ficou estabelecido que o que ficou conhecido como “extrema unção” seria o
quinto sacramento. Foi oficializado na 14a sessão do Concilio de
Trento {contra-reforma}, em 1551. Foi a perda total da eficácia do óleo como
curativo, o que também não teria sentido se fosse um rito.
CONCLUSÃO
A compreensão que fica é
que Tiago referiu-se a uma medicina contemporânea, para ilustrar o princípio
que tanto o método médico, como o método não-médico cristão são válidos
no tratamento da doença. O tratamento de doenças, para os cristãos, é uma
combinação dos dois métodos. Todo o arsenal da medicina contemporânea deve ser
usado, e a igreja deve sempre orar por seus doentes.
POST-SCRIPTUM
Doença e cura têm sempre
mais do que apenas uma dimensão física. Devemos tratar medicamentosamente, mas
orar sempre pela cura e, se for o caso, por perdão. Não há separação cartesiana
de corpo e alma. A doença é sempre física, mental, social e espiritual, e Tiago
nos lembra disso.
Curar é bom, mas orar
nunca é demais. Lembremo-nos de que esse parágrafo é sobre oração, em
nome de JESUS.