Não há
como ter dúvidas quanto a posição ética do Velho
Testamento em relação ao divórcio: é contra. O texto de Ml
2:14 a 16 não deixa dúvidas. “ E
vocês ainda perguntam: “por quê? É porque o Senhor é testemunha entre você e
a mulher da sua mocidade, pois você não cumpriu a sua promessa de fidelidade,
embora ela fosse a sua companheira, a mulher de seu acordo matrimonial. Não foi
o Senhor que os fez um só? Porque ele desejava uma descendência consagrada.
Portanto, tenham cuidado: Ninguém seja infiel à mulher da sua mocidade. “Eu
odeio o divórcio.”
Se for contra a vontade de Deus,
é pecado. Mas é um pecado para o qual Deus mesmo providenciou uma “saída”, orientando
para o divórcio e possibilitando novo casamento. Dt 24: 1-4: “Se um homem
casar com uma mulher e depois não a quiser mais por encontrar nela algo que ele
reprova, dará certidão de divórcio à mulher e a mandará embora. Se, depois de
sair da casa, ela se tornar mulher de outro homem, e este não gostar mais dela,
lhe dará certidão
de divórcio, e a mandará embora. Ou se o segundo marido morrer, o primeiro, que
se divorciou dela, não poderá casar-se com ela de novo, visto que ela foi
contaminada.”
Jesus foi questionado sobre o
divórcio, justamente por causa desse paradoxo do VT: Mt 19:3-9. A pergunta foi de
alguns fariseus que queriam pô-lo a prova: “ É permitido ao homem divorciar-se
de sua mulher por qualquer motivo?”
Diante da resposta negativa do Senhor, voltaram a perguntar o porquê da
permissão do VT E a resposta de Jesus foi: “Moisés permitiu que vocês se divorciassem de suas mulheres por
causa da dureza de coração de vocês.”
Na realidade, o pecado corrompe todos
os relacionamentos humanos, tornando realmente muito difícil a manutenção de
qualquer um deles. E foi por isso a reação dos discípulos, como expressa o
v.10, de forma negativa, ao que o Senhor Jesus responde, no v.11, com a graça
de Deus.
A pergunta dos fariseus havia sido
realmente traiçoeira, porque o contexto rabínico da época consistia de duas
escolas que se opunham:
A do Rabi Shammai, que
autorizava o divórcio se a mulher não fosse virgem ao casar, com base em Dt 22:13-21.
A do Rabi Hillel, que
autorizava o divórcio a critério do marido, por qualquer coisa que ele julgasse
fosse ofensiva. Que, aliás, foi a pergunta feita ao
Senhor Jesus, por que o Rabi Hillel era o mais popular.
Como se vê, o contexto era
“machista”, como também o era o contexto greco-romano, o dominante na época.
Nesse contexto, havia um padrão de subordinação: esposa ao marido, filhos aos
pais, e escravos aos senhores. Havia uma base filosófica para isso, baseada em Aristóteles,
filósofo grego do séc.
Não é surpresa, então, que quando
o Apóstolo Paulo vai falar do assunto, ele fale juntamente de casamento,
paternidade e escravidão, pois esses tópicos eram tratados conjuntamente no seu
contexto cultural.
Uma conseqüência desse contexto
era que, como a família {casal, filhos e escravos} era considerada a base da
sociedade civil, qualquer coisa que abalasse a autoridade, masculina, do “pater
famílias” era considerada como sedição, uma revolta civil.
Mesmo assim, antes de iniciar a
abordagem do assunto, Paulo subverte a pirâmide de autoridade da época: Ef
5:21. “Sujeitem-se uns aos outros, por temor a Cristo.”
Mas, em seguida, nos versículos
seguintes, ele volta a seguir o padrão dessa pirâmide de autoridade: Ef 5:
De qualquer forma, a tensão
permanece. Para Paulo, era possível dois serem um, em Cristo, e dois se
tornarem uma só carne, e ainda assim haver hierarquia de ofício. Em Gl 3:28 ele
deixa claro que na nova realidade da salvação todos são iguais: “Não há
judeu nem grego,escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um
Porém, o Apóstolo não deixa isso
claro quando inclui a pirâmide de autoridade nos seus textos, porque essa nova
realidade estava apenas começando a transformar os relacionamentos. Ele não
escreveu tratados de teologia, mas sim cartas, escritas em meio a problemas e
situações específicos. Por exemplo,
Na história da Igreja ocidental,
no séc. 4 , Santo Agostinho , entendendo que a palavra mistério que aparece em Ef 5:32 tem o sentido de
sacramento, por causa da tradução latina de “mysterion” a partir do grego,
considerou o casamento como indissolúvel, em qualquer situação, não importando
se fosse adultério, cônjuge incrédulo e intolerante, nada! Nessa mesma época,
na Igreja oriental, se permitia o divórcio e novo casamento por adultério ou
ofensas que fossem consideradas tão sérias como o adultério, como abandono do
lar, violência doméstica, etc. Mas, no ocidente, havia uma alternativa que
perdurou até a Reforma, e tecnicamente até hoje, e que não era divórcio, mas
funcionava como se o fosse. Era a anulação do casamento, prerrogativa
papal, ou de seus legados, com o que os cônjuges revertiam a
condição de solteiros.
Na Reforma do séc. 16, no esforço
de retornar ao ensino bíblico, os protestantes rejeitaram a natureza
sacramental do casamento, e com isso a indissolubilidade absoluta do casamento
cristão. Com base na Bíblia, desenvolveu-se no campo protestante o consenso que
o casamento é santo, e em princípio indissolúvel, mas que existem
situações que rompem o laço matrimonial, e que permitem o divórcio e novo
casamento. MAS, não houve consenso sobre
quais seriam estas situações.
Lutero defendia que a fidelidade
é uma virtude cristã muito importante, e de início considerava o casamento
indissolúvel, mas, não se sabe se sério ou não, disse também que preferia a bigamia
ao divórcio. Pessoalmente foi casado com Catarina Von Bora, e nunca se
divorciou, nem foi bígamo, mas orientou e permitiu que Felipe de Hesse,
importante nobre alemão, praticasse a bigamia. No entanto, acabou se
pronunciando a favor do divórcio, como último recurso, nos casos de
infidelidade irreversível, impotência, recusa em se manter relações sexuais, e
deserção. Melanchton, teólogo e colega de Lutero, admitia
apenas a infidelidade e a deserção, tendo como bases para tal, a “exeção de
Mateus” e o “privilégio Paulino”.
João Calvino admitia o divórcio
por infidelidade, deserção e por diferenças religiosas irreconciliáveis. Em
1561, por sua influência, a cidade de Genebra promulgou leis que permitiam o
divórcio por essas razões. Já o reformador de Zurique, Zwinglio, e o reformador
de Estrasburgo, Martin Bucer, admitiam, além das mesmas causas, o abandono do
casamento {mesmo que o cônjuge não abandonasse o lar}, perigo de vida e
insanidade, sendo que, em Estrasburgo, o consentimento mútuo era aceito { abandono do casamento por ambos}.
Na contra-reforma, no Concílio de
Trento, em 1563, em oposição aos reformadores, a Igreja Católica reafirmou a
indissolubilidade do casamento, em qualquer situação.
Na evolução após a época dos
reformadores { a última Confissão de Fé foi a de
Westminster, em 1649}, o casamento foi se tornando mais e mais assunto da
esfera civil, com a Igreja interferindo cada vez menos nas legislações {
primeiro nos países protestantes, e depois também nos católicos}. E, como os
antropologistas notaram, conforme aumentava a influência e a participação
feminina na sociedade, aumentava, e ainda aumenta a freqüência de divórcios. E,
no meio eclesiástico, a influência da sociedade é cada vez maior.
E assim chegamos ao nosso “hic et
nunc”! Que posição tomar como cristãos? Podemos nos lembrar de alguns pontos:
A submissão mútua é um chamado de Deus
para todos os relacionamentos cristãos.
Dominação e aspereza no uso de
autoridade está fora de cogitação.
Liderança é para servir, com cuidado e
delicadeza.
Como eu trato o outro me afeta
diretamente, pois eu e os outros crentes pertencemos a “um só corpo”, e, no
caso do casamento, eu e minha esposa “somos uma só carne”.
Mas esses conceitos, como todos
os outros, e os textos que vemos na Bíblia, tem que ser atualizados, na sua
aplicação, para nossa realidade cristã de hoje, se formos pensar no divórcio.
Na realidade nos já fazemos isso
automaticamente. Os mandamentos bíblicos para as mulheres cobrirem as cabeças
para orar, ou de que devemos lavar os pés uns dos outros, são entendidos
facilmente como ordenações para reverência na oração, e para uma vida de
serviço.
Outro exemplo é a escravidão. Se alguém,
hoje, acha que escravidão é errada, mas acha, por exemplo, que o marido tem que
ter autoridade sobre a esposa, está sendo no mínimo inconsistente.
Com tudo isso, podemos ir a questão: É correto ao cristão divorciar-se?
Em uma rápida pesquisa entre
cristãos, podemos perceber quatro posições básicas:
1-
Não. A Igreja deve ser inflexível a esse respeito.
2-
Sim, mas só por infidelidade. É a mais comum, baseada na exceção de
Mateus, e inclui com freqüência o abandono irremediável do lar.
3-
Sim, mas só se após uma separação o”outro”
recasar. Acredita que com o tempo, sempre há chance de uma reconciliação.
4-
Sim, caso a caso. Não vê o divórcio como um direito, mas, às vezes, como
o mal menor. Não é assunto de lei, de dureza de corações, mas de graça,
pelo amor de Deus.
Qual seria a nossa posição?